arquitetura

O Matheus é saudosista em relação à filosofia que marcou a arquitetura original de Brasília.

Havia no entendimento da época um pensamento de comunidade que ele acha que fomos perdendo. E que precisamos mais do que nunca resgatar. Porque os problemas atuais encontram na criatividade plural do começo de Brasília uma saída viável. O Matheus acredita que a arquitetura não pode resolver sozinha todos os problemas do dia a dia, mas pode ajudar a solucionar muitos deles.

Ele vê esse potencial da sua profissão nos ensinamentos da arquitetura feita para Brasília: nas superquadras do Plano Piloto, a intenção de padronizar o visual dos prédios era para que as árvores, a natureza em geral, e a vida do lado de fora se sobressaíssem. Os prédios da época da construção da cidade, mais simples, são perenes porque não vivem à mercê de uma moda mais efêmera. E nada mais importante para as questões atuais de consumo do que escolhas pela durabilidade, pelo menos descartável, pelo mais sustentável.

Apesar de ter sido construída numa época em que havia um pensamento dominante diferente do que temos hoje, Brasília é uma cidade adaptável. Se o seu planejamento servia às necessidades da vida em 1960, essas mesmas características oferecem a possibilidade de soluções para os problemas atuais. A amplitude das vias pode abrigar bicicletas, por exemplo, ajudando a resolver a questão do excesso de carros. Há quem possa entender o uso da palavra adaptável ao se referir a Brasília como contraditório. Afinal, a flexibilidade quanto a mudanças parece não existir numa cidade que é tombada. O Matheus explica, no entanto, que o real significado da expressão não é congelar, mas criar parâmetros para as intervenções. Tombamento não é engessamento.

Brasília é uma lição porque foi pensada como um organismo.

Aqui é possível entender que fazemos parte de algo maior e que cada intervenção, a menor que seja, afeta a comunidade e pode melhorar a cidade como um todo. Essa conexão fica evidente em um dos bons exemplos que a arquitetura da época deixou: a interação entre as áreas de conhecimento em prol de uma solução comum. Foi assim, com contribuições diversas, que se chegou ao desenho tão bem sucedido da Superquadra, que soluciona questões de estrutura de maneira singular. Ela facilita o convívio e o deslocamento, oferece serviços a curtas distâncias, e proporciona a chance de atravessar a quadra por entre os pilotis, que são também palco para as brincadeiras das crianças. Um projeto que promove, enfim, o espírito de comunidade. Um aprendizado que vale para qualquer época.

Matheus é arquiteto e pai. Formado na UnB, onde adora voltar para vivenciar a arquitetura inovadora dos seus prédios, ele é inspirado diariamente pelos desenhos da cidade e se empenha em manter a identidade de Brasília e promover discussões sobre arquitetura e soluções urbanísticas.